Enquanto todo mundo discute se Messi vai renovar com o Inter Miami e quanto vale a próxima franquia da NWSL, existe uma liga profissional de futebol nos Estados Unidos crescendo 34% ao ano em público, fechando contratos com ESPN e CBS — e que quase ninguém cobre.
É a USL. E ela merece muito mais atenção do que recebe.
A entrada para a nova liga de primeira divisão planejada para 2028 já custa US$ 20 milhões para o nível Championship — equivalente a uma taxa de expansão que a MLS cobrava em 2016. Em 2026, a MLS cobra US$ 500 milhões pela mesma posição. São números de mundos completamente diferentes, com uma janela de diferença que ainda pode ser explorada.
Este artigo não é sobre quem vai ser campeão. É sobre por que a USL pode ser a oportunidade de ROI mais subestimada do futebol americano neste momento — e o que o futebol brasileiro pode aprender com esse modelo.
O Que É a USL — e Por Que Ela é Diferente da MLS
A USL (United Soccer League) é a maior organização de futebol profissional dos Estados Unidos por número de times e comunidades atendidas. Não é uma liga de "segunda opção" — é um ecossistema com estrutura própria, transmissão nacional e modelo de negócio fundamentalmente diferente da MLS.
Enquanto a MLS opera como uma liga fechada — sem promoção nem rebaixamento, entrada somente por convite e taxa milionária — a USL se organiza em camadas conectadas:
USL Championship: A divisão mais competitiva do sistema atual, com clubes que operam como negócios de médio porte, transmissão pela CBS Sports, ESPN, TUDN e Peacock, e arenas próprias ou compartilhadas em mercados significativos.
USL League One: A camada abaixo, com orçamentos menores e foco em cidades de médio porte. O modelo exige ainda mais disciplina de caixa — e é justamente essa restrição que produz os casos de gestão mais eficientes da liga.
USL Super League (feminino): Lançada em 2024, é a aposta de longo prazo da USL no futebol feminino — em estágio inicial, com custos menores e demanda crescente.
Em setembro de 2025, a BellTower Partners — fundo liderado por Kewsong Lee, ex-CEO da Carlyle Group — fez um investimento estratégico na USL. Em fevereiro de 2026, a Weatherford Capital, de Tampa, entrou como sócia estratégica. Dois fundos de private equity de perfil sério apostando no mesmo ativo em menos de seis meses. O mercado institucional começou a perceber o que os torcedores ainda não viram.
Os Números de uma PME de Futebol
Se a MLS opera com valuations bilionários e Messi ganhando US$ 28 milhões por ano, a USL opera em outra escala — e é exatamente isso que a torna interessante.
Um clube estabelecido da Championship gasta entre US$ 3,7 e US$ 8,4 milhões por ano para operar. Na League One, entre US$ 2,4 e US$ 5,4 milhões. Para o primeiro ano de existência, os custos de estruturação sobem (instalações, contratações iniciais, marketing de lançamento), mas o modelo recorrente é esse.
Pensa assim: é o orçamento de uma empresa de médio porte bem gerida. Uma distribuidora regional, uma construtora de bairro, uma clínica com três unidades. Não é um negócio que exige acesso a fundos bilionários — é um negócio que exige gestão profissional com capital real.
Essa escala cria algo raro no esporte profissional americano: a possibilidade de operar com lucro sem precisar de estrela global, contrato de TV monstruoso ou naming rights de arena. Dois clubes são frequentemente citados como exemplos de gestão eficiente dentro desse modelo:
O Union Omaha construiu sua operação em torno de identidade comunitária forte, controle rigoroso de custos e receitas diversificadas entre bilheteria, patrocínios locais e eventos. O Greenville Triumph SC fez o mesmo na Carolina do Sul — eficiência operacional como marca registrada, com uso inteligente do estádio além dos dias de jogo.
Não são cases glamourosos. São cases de disciplina financeira — que é exatamente o que separa um clube sustentável de um clube que fecha as portas.
A Tacada de US$ 20 Milhões vs. US$ 500 Milhões
Aqui está o dado que define a conversa.
Em outubro de 2026, a taxa de expansão para entrar na USL Championship chegou a US$ 20 milhões. Para a League One, está em US$ 5 milhões.
No mesmo mês, a MLS anunciou uma nova franquia para San Diego por US$ 500 milhões de taxa de expansão — o maior valor da história da liga.
Dois mercados de futebol profissional americano. Valores de entrada separados por 25 vezes.
A comparação relevante não é "qual é melhor". A comparação relevante é: em que estágio cada uma está?
A MLS de 2016 cobrava US$ 150 milhões por franquia. A MLS de hoje cobra US$ 500 milhões. O crescimento foi real — mas a janela de entrada barata fechou. Quem pagou US$ 25 milhões pelo Inter Miami em 2018 está sentado em cima de um ativo de US$ 1,35 bilhão hoje.
A USL Championship em 2026 cobra US$ 20 milhões. A USL Premier — a nova primeira divisão planejada para 2028, com promoção e rebaixamento — vai estabelecer um novo patamar de entrada. Quem entrar pelo Championship antes de 2028, com gestão competente, vai estar na liga de cima sem pagar a taxa da liga de cima.
Isso não é garantia de retorno. É uma janela de assimetria que quem estudou a NWSL em 2020 reconhece imediatamente.
O Risco que a MLS Não Tem — e Por Que Isso Importa
Aqui está o ponto mais importante para quem pensa em investimento, não só em paixão por futebol.
Em setembro de 2025, os donos dos clubes da USL votaram pela adoção de um sistema de promoção e rebaixamento entre Championship e League One — conectado ao USL Premier planejado para 2028. É o mesmo modelo que existe no futebol europeu, onde times sobem e descem entre divisões com base no resultado esportivo.
Para quem investe no futebol americano, isso muda tudo.
O risco: um clube rebaixado da Championship para a League One perde receita de bilheteria, patrocinadores e visibilidade. Sem reserva financeira, um rebaixamento pode ser fatal — foi o que aconteceu com o Memphis 901 FC, que encerrou as operações em 2024. O futebol europeu está cheio de casos similares: clubes com história que nunca se recuperaram do ciclo de rebaixamento-dívida-venda.
A oportunidade: um clube promovido da League One para a Championship — ou da Championship para o Premier — entra em uma liga com receita maior, patrocinadores maiores e valuation mais alto. A promoção funciona como uma saída de investimento dentro do próprio esporte: comprar barato na League One, promover, vender a participação em um ativo de Championship.
Para investidores dispostos a aceitar esse trade-off, a USL oferece algo que a MLS não tem: upside por desempenho, não apenas por crescimento passivo da liga.
É o mesmo princípio de comprar ação de uma empresa em fase de crescimento versus comprar participação numa blue chip estabelecida. Riscos diferentes, perfis de retorno diferentes.
A Super League Feminina: O Estágio Inicial que a NWSL Não Oferece Mais
Na semana passada, analisamos como a NWSL passou de US$ 2 milhões de taxa de expansão para US$ 205 milhões em quatro anos. O Angel City FC foi de US$ 2 milhões de investimento inicial para US$ 335 milhões de valuation em seis anos — retorno de 167 vezes.
Esse nível de upside não existe mais na NWSL. O mercado precificou. Entrar agora custa US$ 205 milhões.
A USL Super League, lançada em 2024, é onde o futebol feminino americano estava em 2019-2020 — antes de a NWSL explodir. Custos operacionais menores, demanda crescente e valuations ainda em construção.
Na temporada inaugural 2024-25, a Super League registrou média de 2.487 torcedores por partida em 8 times — com a Carolina Ascent liderando com 4.032 de média. São números modestos, mas o padrão que precedeu o boom da NWSL era muito parecido.
O risco é real: a liga feminina anterior nos EUA (WUSA) fechou em 2003 por falta de modelo sustentável. A Super League tem um ambiente mais favorável — mais interesse de marcas, mais aceitação cultural, mais infraestrutura de mídia — mas a comparação histórica existe.
Para investidores com apetite para risco de estágio inicial e horizonte de 6-8 anos, a Super League tem o mesmo perfil assimétrico que a NWSL tinha em 2020. A diferença é que agora todo mundo já viu o que aconteceu com a NWSL — o padrão é mais reconhecível.
O Que o Brasil Pode Aprender com Esse Modelo
A comparação mais direta não é USL Championship vs. Série A. É USL League One vs. Série C brasileira.
Os dois universos têm tamanho parecido: orçamentos que variam de US$ 2,4 a 5,4 milhões na League One (cerca de R$ 12 a 27 milhões ao câmbio atual), e orçamentos de R$ 15 a 40 milhões em clubes da Série C com SAF bem estruturada.
O que a League One faz diferente — e que o futebol brasileiro ainda não aprendeu de forma sistemática:
Uso do estádio como ativo multiuso. Na League One, o estádio funciona como centro de eventos, shows, eventos corporativos e outras modalidades esportivas fora da temporada de futebol. No Brasil, a maioria dos clubes médios usa o estádio para um único propósito: o jogo de domingo. O modelo do Atlético-MG com a Arena MRV é a exceção, não a regra.
Patrocínio local como pilar, não como complemento. Nos EUA, clubes menores constroem receita principalmente a partir de empresas da região — que veem no clube uma plataforma de marketing local muito mais eficiente do que anunciar em mídia nacional. No Brasil, o modelo ainda é muito centrado em patrocínio master nacional. Clubes da Série C e D raramente têm equipe comercial dedicada ao mercado regional.
Marca comunitária como diferencial estratégico. Union Omaha e Greenville Triumph construíram identidade fortíssima com as cidades onde estão. Não competem com os gigantes — são os "times da cidade" de mercados que os gigantes ignoram. No Brasil, clubes como Guarani, Ponte Preta e Náutico têm torcidas expressivas e história real, mas ainda não monetizaram essa lealdade de forma proporcional.
A SAF deu ao futebol brasileiro a estrutura jurídica para esse tipo de operação. O que falta é o manual de gestão — e a USL tem esse manual mais bem desenvolvido do que qualquer outra liga no mundo nesse nível de orçamento.
Riscos Reais que Não Podem Ser Ignorados
A análise seria desonesta sem isso.
O pro-rel pode destruir clubes mal preparados. Memphis 901 FC fechou em 2024. A história da USL tem outros exemplos de franquias que não sobreviveram a dificuldades financeiras. Clube sem reserva de caixa não aguenta um ano na divisão inferior — e no modelo com rebaixamento, essa vulnerabilidade é constante.
A dependência de expansão é um sinal de alerta. Uma parcela significativa da receita da liga vem de taxas pagas por novas franquias que entram. Isso funciona enquanto o mercado cresce — mas é uma receita não recorrente. Quando a expansão desacelerar, a liga precisa ter substituto estrutural. O novo modelo de revenue sharing aprovado em setembro de 2026 aponta para essa direção, mas ainda está sendo implementado.
O USL Premier de 2028 é uma aposta, não uma certeza. A nova divisão de primeira linha está planejada, tem investidores e tem estratégia. Mas lançar uma nova liga no mercado americano com promoção e rebaixamento é algo que nunca foi feito em escala nacional nos EUA. Há risco de execução real.
A Super League está em fase embrionária. Média de 2.487 torcedores por jogo é promissora — mas ainda é um décimo do que a NWSL registra em seus melhores mercados. A distância até virar negócio de grande escala ainda é considerável.
O Que Esperar nos Próximos Anos
Três movimentos vão definir se a USL entrega ou decepciona:
1. O lançamento do USL Premier em 2028. É o evento catalisador. Uma primeira divisão americana com promoção e rebaixamento seria inédita — e pode mudar completamente o patamar de interesse de investidores, patrocinadores e mídia. O sucesso do lançamento vai depender de quais mercados e clubes abrirem a liga.
2. O novo contrato de TV. A USL tem deals com CBS, ESPN, TUDN e Peacock — mas em termos que não foram divulgados publicamente. A próxima rodada de negociação vai dizer quanto a mídia americana realmente acha que a liga vale. Esse número vai ser o benchmark para qualquer investidor que entrar a partir de 2026.
3. A Copa do Mundo de 2026. Os Estados Unidos co-sediam a Copa com México e Canadá. O efeito de interesse local pelo futebol que a Copa vai gerar — especialmente em mercados de médio porte que a MLS não cobre — é o vento a favor que a USL pode aproveitar melhor do que qualquer outra liga americana. Estão presentes em mais de 200 comunidades. É onde o público novo vai aparecer primeiro.
Perguntas Frequentes
A USL é considerada futebol profissional de verdade nos EUA?
Sim. A Championship e a League One são ligas profissionais reconhecidas pela FIFA e pela CONCACAF. Os jogadores têm contratos profissionais, existem convenções coletivas de trabalho e as ligas têm transmissão nacional. Não é futebol amador — é um patamar entre a semi-profissional europeia e a MLS.
Quanto custa entrar na USL Championship em 2026?
A taxa de expansão atual é de US$ 20 milhões para o Championship e US$ 5 milhões para a League One, segundo o Front Office Sports (outubro/2026). Isso não inclui custos de montagem do clube, elenco, estádio ou operação do primeiro ano.
Por que a MLS não tem rebaixamento e a USL vai ter?
A MLS foi estruturada como franquia fechada desde o início — modelo inspirado na NFL e NBA. Isso garante estabilidade financeira para os donos, mas elimina o incentivo competitivo do rebaixamento. A USL optou pelo modelo europeu justamente para criar mais competição e, segundo seus defensores, mais interesse de torcedores e investidores que enxergam upside por desempenho.
A USL Super League pode crescer tanto quanto a NWSL?
O potencial existe — mas o caminho é mais longo e os riscos são maiores. A NWSL já existia desde 2013 quando a explosão de valuation começou; a Super League existe desde 2024. O mercado feminino americano tem apetite crescente, mas transformar isso em receita de US$ 100+ milhões por clube exige infraestrutura, contrato de TV robusto e uma marca nacional consolidada — o que ainda está sendo construído.
O que o Brasil pode adaptar do modelo USL para as SAFs?
Três coisas práticas: (1) uso do estádio para eventos além do futebol, gerando receita fora de temporada; (2) desenvolvimento de patrocínios locais como pilar de receita, não só patrocínio master nacional; (3) construção de identidade de marca comunitária — que o Brasil tem em potencial, mas ainda não monetiza sistematicamente. A SAF deu a estrutura jurídica. O manual de gestão da USL preenche o que ainda falta.
O Que Fica Depois de Tudo Isso
A USL não é a liga mais rica. Não tem Messi, não tem valuations bilionários, não tem o glamour que vende manchete.
O que ela tem é algo mais raro: um modelo de negócio que funciona em escala humana — com orçamentos de PME, receitas diversificadas e uma janela de entrada que os grandes ainda não fecharam.
A MLS de hoje tem 30 anos de história de crescimento documentado. A USL de 2028 pode ser onde a MLS estava em 1996: um projeto novo, com capital institucional sério chegando, infraestrutura sendo construída e taxa de entrada ainda acessível.
Pode não ser. O risco existe, está documentado neste artigo e precisa ser pesado por qualquer investidor.
Mas para quem perdeu o Angel City em 2020, perdeu o Inter Miami em 2018 e está olhando para o cenário do futebol americano em 2026 em busca de onde está a próxima janela — a USL é o lugar mais honesto para começar a pesquisa.
Fontes e Referências
- Brooklyn Expansion Franchise Extends USL's Rise — Front Office Sports (outubro/2026)
- BellTower Partners Makes Strategic Growth Investment in USL — Business Wire (setembro/2025)
- Weatherford Capital Invests in USL Ahead of 2028 Division I Launch — Tampa Bay Business Week (fevereiro/2026)
- USL agrees new rev-sharing model with clubs — Inside World Football (setembro/2026)
- 2024-25 USL Super League season — Wikipedia
- Key reflections from 2024 USL Championship season — Goal.com

