Multipropriedade de Clubes: o Que é a "Multiclube" que Já Chegou ao Futebol Brasileiro


Introdução Direta

Em 2025, o Crystal Palace venceu a Copa da Inglaterra e garantiu vaga na Europa League. Meses depois, a UEFA rebaixou o clube para a Conference League — mesmo com o título no bolso. O motivo não foi técnico nem disciplinar: o empresário John Textor era dono de participação no Palace e, ao mesmo tempo, controlava o Olympique Lyonnais, também classificado para a mesma competição.

O caso escancarou um fenômeno que já não é raro no futebol mundial: um único investidor ou fundo controlando vários clubes ao mesmo tempo, em países e ligas diferentes. No Brasil, o mesmo Textor é dono da SAF do Botafogo, e a CBF acaba de criar uma regra específica para evitar que esse "efeito Textor" se repita por aqui a partir de 2026.

O Que é Multipropriedade de Clubes?

Multipropriedade de clubes — ou multi-club ownership (MCO), no termo usado internacionalmente — é quando uma mesma pessoa, empresa ou fundo de investimento detém o controle, total ou parcial, de dois ou mais clubes de futebol ao mesmo tempo.

Pense em uma rede de franquias de academia. O dono central não frequenta todas as unidades, mas define a estratégia, escolhe fornecedores, decide onde investir e, muitas vezes, transfere professores e equipamentos entre as filiais conforme a necessidade. No futebol, o "dono central" é o clube-sede (normalmente o mais rico), e os "clubes-filiais" recebem investimento, jogadores emprestados e conhecimento técnico — mas seguem uma lógica de negócio pensada lá de cima.

Por Que Isso Importa?

O modelo importa porque mexe diretamente no bolso e na competitividade dos clubes. Para times pequenos ou endividados, entrar numa rede multiclube pode significar a diferença entre sobreviver financeiramente ou minguar. Foi assim que o Bahia recebeu aporte do City Football Group, dono do Manchester City, e passou a ter acesso a scouts, metodologia de treino e capital que sozinho dificilmente conseguiria.

Mas há um outro lado, puramente econômico: quando o mesmo grupo controla dois clubes rivais em competições diferentes, ele pode decidir para qual time vai o melhor jogador, vender um atleta de um clube da rede para outro por um preço "amigável" (abaixo do valor de mercado) ou simplesmente sacrificar o resultado esportivo de um clube satélite em favor do clube principal. Isso distorce o mercado de transferências e pode fragilizar a concorrência esportiva — o produto que sustenta o valor comercial do futebol.

Como Funciona na Prática

O caminho costuma seguir uma lógica parecida em quase todos os casos registrados nos últimos anos:

Primeiro, um fundo ou grupo empresarial identifica um clube com potencial de mercado, mas com dificuldade financeira — geralmente numa liga emergente ou em uma cidade com boa base de torcedores.

Depois, o grupo compra uma fatia relevante ou o controle total da SAF (Sociedade Anônima do Futebol) ou estrutura societária equivalente, injetando capital em troca de participação nas decisões.

Em seguida, o clube passa a integrar uma "rede": compartilha departamento de scouting, usa a mesma metodologia de análise de dados e passa a receber jogadores emprestados do clube principal para ganhar experiência.

Por fim, cria-se um fluxo de transferências dentro da própria rede — o clube menor revela talentos, que muitas vezes acabam vendidos para o clube-sede do grupo, fechando o ciclo de valorização do investimento.

Comparativo: Clube em Rede Multiclube x Clube Independente

Clube dentro de uma rede multiclube (ex.: Bahia e o City Football Group) Recebe capital, tecnologia e rede de contatos internacionais para contratações. Ganha acesso a metodologias de scouting e formação usadas em clubes de ponta na Europa. Em contrapartida, decisões estratégicas (venda de jogadores, contratação de técnico, prioridades de investimento) passam a dialogar com os interesses da rede como um todo, não apenas do clube isoladamente.

Clube independente, com investidor único e sem rede (SAF tradicional) Tem autonomia total sobre decisões esportivas e financeiras, sem concorrer com interesses de "clubes-irmãos". Por outro lado, fica mais exposto: depende exclusivamente da capacidade financeira e da gestão de um único dono, sem a rede de segurança (nem o acesso a scouting global) que um grupo multiclube oferece.

Detalhamento de Regras e Números

O crescimento da multipropriedade é rápido. Segundo um relatório apresentado por senadores franceses (Laurent Lafon e Michel Savin) — uma estimativa política, não um levantamento acadêmico —, entre 200 e 300 clubes no mundo fazem parte de alguma estrutura de multipropriedade hoje, contra menos de 100 há cinco anos e menos de 40 em 2012.

Na Europa, dados citados pela UEFA em análises jurídicas mostram que, em 2017, 26 clubes das primeiras divisões das 15 maiores ligas europeias pertenciam a redes multiclube; em 2021, esse número já era 57. Só o City Football Group controla hoje cerca de catorze clubes, incluindo Manchester City, Girona (Espanha), Troyes (França) e o Bahia.

Na França, o fenômeno é ainda mais concentrado: dez dos dezoito clubes da Ligue 1 e sete dos dezoito da Ligue 2 fazem parte de estruturas de multipropriedade — motivo pelo qual um projeto de lei tramita no país para proibir que um mesmo dono controle simultaneamente um clube francês e um estrangeiro.

No Brasil, o novo Manual de Competições da CBF, válido a partir de 2026 para as Séries A, B e C, proíbe que dois clubes controlados pelo mesmo grupo disputem a mesma divisão nacional — se isso acontecer, apenas um deles poderá ser admitido, cabendo à Diretoria de Competições da CBF decidir qual permanece. A fiscalização ficará a cargo da CBF em conjunto com a ANRESF (Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol). A regra não proíbe a multipropriedade em si — apenas o encontro de clubes do mesmo dono na mesma competição.

Imagem criada por Prancheta e Cofre 


Riscos, Gargalos e Desafios

O maior risco é a integridade competitiva: torcedores de clubes menores dentro de uma rede podem se perguntar se as decisões em campo realmente priorizam o time deles ou o clube-sede do grupo. Esse é o argumento central de quem defende regulação mais dura, como no Portugal Football Summit citado por veículos esportivos portugueses.

Há também o risco de dependência financeira excessiva. O caso do Botafogo é ilustrativo: sob a gestão de John Textor, o clube conquistou a Libertadores e o Brasileirão de 2024, mas a CNN Brasil relatou que o modelo de investimento pesado deixou dívidas cujos efeitos ainda devem ser sentidos nos próximos anos, mesmo após a saída de Textor do comando direto da Eagle Football Holdings.

Por fim, competições internacionais já estão travando casos concretos: no regulamento do Mundial de Clubes FIFA 2025, o artigo 10 proíbe que uma mesma pessoa ou entidade controle ou influencie mais de um clube participante — regra que colocou em xeque a participação simultânea de Pachuca e León, ambos ligados ao mesmo grupo empresarial mexicano.

Impacto no Futuro

A tendência é de mais regulação, não menos. UEFA, FIFA e agora a CBF estão apertando as regras de convivência entre clubes do mesmo grupo nas mesmas competições, mesmo sem proibir a propriedade em si. Na França, a discussão avança para proibir até a combinação de um clube nacional com um estrangeiro sob o mesmo dono.

No Brasil, o período de 2026 a 2028 será decisivo: a CBF prevê fase de transição com advertências antes da aplicação plena das regras de sustentabilidade financeira e vedação à multipropriedade, o que deve moldar como novos investidores estrangeiros — e brasileiros, como a Squadra Sports — estruturam suas redes de clubes daqui para frente.

Perguntas Frequentes

O que acontece se dois clubes do mesmo grupo se classificarem para a mesma competição?

Normalmente, apenas um deles pode disputar o torneio. Foi o que ocorreu com Crystal Palace e Lyon na Europa League 2025/26, e é o que a nova regra da CBF prevê para o futebol brasileiro a partir de 2026.

A multipropriedade é proibida no Brasil?

Não. A CBF não proíbe que um grupo controle vários clubes brasileiros — ela proíbe que dois clubes do mesmo grupo disputem a mesma divisão nacional simultaneamente.

Quais clubes brasileiros já fazem parte de redes multiclube?

O Bahia integra o City Football Group, e o Botafogo pertence à Eagle Football Holdings, de John Textor, que também tem participação no Lyon. Há ainda redes menores formadas por empresários brasileiros, como a Squadra Sports.

A multipropriedade é sempre ruim para o clube pequeno?

Não necessariamente. Ela pode trazer capital e know-how que o clube não teria sozinho, mas cria o risco de decisões esportivas serem tomadas pensando na rede como um todo, e não apenas no interesse local.

Quando as novas regras da CBF entram em vigor?

O Manual de Competições com a vedação à multipropriedade passa a valer em 2026 para as Séries A, B e C, com fiscalização conjunta da CBF e da ANRESF.

Síntese

A multipropriedade de clubes deixou de ser uma curiosidade do futebol europeu e virou pauta regulatória concreta no Brasil. O modelo resolve um problema real — a falta de capital de muitos clubes — mas cria outro: a dúvida sobre até que ponto as decisões dentro de campo continuam sendo do clube, e não da rede que o controla. A regra da CBF para 2026 é uma resposta a esse dilema, mas o histórico recente do Botafogo mostra que capital externo, mesmo vindo de uma rede internacional, não é garantia de estabilidade financeira nem esportiva.

Fontes e Referências

  • Trivela — "A mudança da CBF sobre as redes multiclubes no futebol brasileiro": https://trivela.com.br/brasil/cbf-regulamento-multiclubes-john-textor/
  • Lei em Campo — "Multipropriedade de clubes: regular para proteger o esporte": https://leiemcampo.com.br/multipropriedade-de-clubes-regular-para-proteger-o-esporte/
  • Legalblock — "O Fenômeno da Multipropriedade de Clubes de Futebol Profissional: Oportunidades e Desafios": https://www.legalblock.pt/o-fenomeno-da-multipropriedade-de-clubes-de-futebol-profissional-oportunidades-e-desafios/
  • Máquina do Esporte — "CBF apresenta regras do Fair Play Financeiro válido para Séries A, B e C": https://maquinadoesporte.com.br/futebol/cbf-apresenta-regras-do-fair-play-financeiro-valido-para-series-a-b-e-c/
  • CNN Brasil — "Mesmo com novo investidor, Botafogo deve sofrer novos transfer bans": https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/botafogo/mesmo-com-novo-investidor-botafogo-deve-sofrer-novos-transfer-bans/
  • ESPN — "Mundial de Clubes: Multipropiedad, obstáculo para Pachuca y León": https://espndeportes.espn.com/futbol/mexico/nota/_/id/14410659/mundial-clubes-pachuca-leon-multipropiedad-reglamento-problema
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